Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 15/07/2019 às 16:39:53

Hospitalidade e o acolhimento

As leituras bíblicas, que serão feitas nas celebrações do próximo domingo, convidam-nos a refletir sobre a hospitalidade e o acolhimento. Sem dúvida, no mundo segregador e violento em que vivemos, esta reflexão vem a propósito.
         São milhares de migrantes e refugiados que, fugindo da miséria, da violência e perseguição, tentam chegar à Europa. Com as medidas restritivas impostas pelo Presidente Trump, vive-se uma verdadeira crise humanitária na fronteira entre os EUA e México.  
Dados pesquisados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), em 2018, setenta milhões de pessoas foram forçadas a se deslocarem de seus lares, inclusive dentro de seu próprio país. Isto equivale a dizer que, a cada minuto, trinta e uma pessoas são forçadas a se deslocar no mundo. Em tudo isso, o que mais estarrece é que, desses migrantes e refugiados mais da metade (52%) são crianças. Alerta ainda o ACNUR que 173.800 dessas crianças migraram desacompanhadas, tornando-se muito mais vulneráveis à exploração e ao abuso. 
Engana-se quem pensa que todos esses migrantes e refugiados são provenientes de países que vivem em guerra, como é o caso da Síria. Não. Eles também vêm de países que passam por graves situações sociais, políticas e econômicas como é o caso da Venezuela. Segundo a Organização dos Estados Americanos (OEA), até o final deste ano, a Venezuela contará com mais de cinco milhões de seus cidadãos refugiados em outros países.
Diante de tanta hostilidade, o antídoto só pode ser a hospitalidade que para o povo da Bíblia, entre os deveres, era um dos mais sagrados.
Neste sentido, o Papa Francisco tem sido incansável. Logo nos primeiros meses de seu pontificado, diante das notícias de naufrágios de vários navios e da morte de milhares de imigrantes no mar Mediterrâneo, viajou até Lampedusa para, como ele mesmo falou: “Rezar, cumprir um gesto de solidariedade, mas também, para despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que aconteceu”. Três anos depois, em 2016, aos milhares de refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia, diz que sua visita, além da solidariedade, queria também chamar a atenção do mundo para a grave crise humanitária que eles, os refugiados, estavam vivendo. Aos moradores em situação de rua da cidade d e Roma mandou construir banheiros, instalar lavanderias, contratar cabeleireiros, montar um centro médico e um ponto de distribuição de artigos de primeira necessidade, para que, mesmo continuando a morar na rua, tivessem o mínimo de dignidade. 
Estes gestos, sem dúvida, proféticos, ganham maior brilho se os iluminarmos com suas palavras como as que pronunciou em Assunção, no dia 12/07/2016, quando de sua visita ao Paraguai.
“A Igreja é uma mãe de coração aberto que sabe acolher, receber, especialmente a quem precisa de maior cuidado, que está em maior dificuldade. A Igreja é a casa da hospitalidade. Quanto bem se pode fazer, se nos animarmos a aprender a linguagem da hospitalidade, do acolher! Quantas feridas, quanto desespero se pode curar numa casa onde alguém se sente bem-vindo! Para isso é necessário que a porta esteja aberta, também a porta do coração, a fim de praticar hospitalidade com o faminto, o sedento, o forasteiro, o nu, o enfermo, o encarcerado (cf. Mt 25, 34-37), o leproso, o paralítico. Hospitalidade com aquele que não pensa como nós, com a pessoa que não têm fé ou a perdeu. Hospitalidade com o perseguido, o desempregado. Hospitalidade com as culturas diferentes. Hospitalidade com o pecador. (...). Como é belo imaginar as nossas paróquias, comunidades, capelas, lugares onde estão os cristãos como verdadeiros centros de encontro tanto entre nós como com Deus”
“Hospitalidade é uma palavra-chave, uma palavra central na espiritualidade cristã, na experiência do discipulado. Poderíamos dizer que só é cristão aquele que aprendeu a hospedar, a alojar”.
Tenhamos o coração aberto a essas palavras do Papa. Elas fazem eco àquelas do Evangelho: “Fui forasteiro, e me recebestes em casa.... Então os justos lhe perguntarão: ... Quando foi que te vimos como forasteiro e te recebemos em casa?... Então o Rei lhes responderá: Em verdade vos digo, todas as vezes que fizestes isso a um desses mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!

 


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