Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 22/06/2017 às 09:16:49

Ramadã

No próximo sábado, 24 de junho, no início da noite, nossos irmãos muçulmanos vão encerrar um tempo muito sagrado para eles, uma espécie de Quaresma para nós católicos. Trata-se do mês de Ramadã, o mês do Jejum. Todos que gozem de perfeita saúde física e mental, a partir da adolescência, durante o mês de Ramadã, estão obrigados ao Jejum, inclusive de água, do nascer ao pôr do sol. Se por algum motivo alguém não puder jejuar durante o mês de Ramadã, jejuará, numa outra oportunidade, o mesmo número de dias.

Jejum é um dos cinco pilares da fé islâmica. Não é um simples ato exterior. Pelo contrário, é um período todo especial para o aprofundamento da fé, através da leitura do Corão, que é o livro sagrado deles. Segundo os ensinamentos de Maomé, "O muçulmano que não deixar de dizer inverdades e não abandonar todas as formas de maldade no Ramadã, não lhe adiantará jejuar, pois a Deus não interessa que o muçulmano deixe apenas de comer e de beber". Ainda segundo os ensinamentos de Maomé, quando alguém se levanta de manhã em estado de jejum não deve usar linguagens obscenas nem praticar qualquer ato de ignorância. E se for caluniado ou se alguém quiser discutir com ele, o que está jejuando deve dizer: “Estou jejuando, estou jejuando."

O Ramadã, com seu Jejum, é também um tempo de orações mais prolongadas e de prática de boas obras. Ao ficar o dia todo sem se alimentar, os muçulmanos sentem no próprio corpo o sofrimento de milhares de irmãos que passam fome e sede, todos os dias, involuntariamente. Por isso durante este mês, eles organizam uma espécie de campanha da fraternidade, ou seja, uma coleta em dinheiro ou em alimentos para distribuir entre os pobres. A esta prática eles dão o nome de caridade do desjejum, na língua árabe: Zakatul Fitr.

Em muitos países de maioria muçulmana o jejum é obrigatório por lei. Ninguém pode declarar em público que não está jejuando. Por isso, as minorias de outras religiões, também os cristãos, devem jejuar sob pena de serem multados ou, até mesmo, presos. No Marrocos o código penal prevê pena de até seis meses de prisão a quem não praticar o jejum.

No fim do Ramadã, os muçulmanos fazem uma grande festa, durante três dias. É a festa do id al-fitr, ou seja, do “Fim do Jejum”. Nesta oportunidade, eles vestem suas melhores roupas e decoram suas casas com luzes e outros enfeites. Dívidas antigas são perdoadas e dinheiro é dado aos pobres. Alimentos especiais são preparados. Parentes e amigos, inclusive cristãos, são convidados a partilhar da festa. Presentes e cartões são trocados e as crianças recebem presentes, algo semelhante ao Natal comemorado nos países do Ocidente.

Infelizmente, alguns fundamentalistas de matriz islâmica ou não, inclusive cristã, aproveitam do tempo do Ramadã e da festa do id al fitr para a prática de atos violentos. O atentado em Londres, no dia 19 de junho, é um exemplo concreto.

Por ocasião do Ramadã, todos os anos a Igreja católica, através do Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, envia uma mensagem aos fiéis muçulmanos. Na mensagem deste ano, o Cardeal Jean-Louis Tauran faz referência à carta encíclica do Papa Francisco Laudato Sì. Transcrevo aqui parte desta mensagem.

Queridos irmãos e irmãs muçulmanos

Queremos assegurar-vos a nossa solidariedade orante neste tempo de jejum, no mês do Ramadã e para a celebração conclusiva do Id al-Fitr, estendendo-vos de coração os nossos melhores votos de serenidade, alegria e abundantes dons espirituais.

(...)

O Papa Francisco chamou a atenção para os danos causados ao meio ambiente, a nós mesmos e aos nossos semelhantes, pelos nossos estilos de vida e pelas nossas decisões. Há, por exemplo, algumas perspetivas filosóficas, fatores religiosos e culturais que ameaçam a relação da humanidade com a natureza. Acolher este desafio envolve todos nós, independentemente de professarmos ou não uma crença religiosa.

O próprio título da encíclica é expressivo: o mundo é uma «casa comum», uma casa para todos os membros da família humana. Portanto, nenhuma pessoa, nação ou povo pode impor de forma exclusiva a sua compreensão do planeta. É por isso que o Papa Francisco nos convida a «renovar o diálogo sobre a forma como estamos a construir o futuro do nosso planeta... porque o desafio ambiental que vivemos, e as suas raízes humanas, nos dizem respeito e afetam a todos nós» (n. 14 ).

O Papa Francisco afirma que «a crise ecológica é um apelo a uma conversão interior profunda» (n. 217). O que é necessário é a educação, uma abertura espiritual e uma «conversão ecológica global» para enfrentar adequadamente este desafio. Como crentes, o nosso relacionamento com Deus deve ser cada vez mais evidente, através da maneira como nos relacionamos com o mundo que nos rodeia. A nossa vocação para ser os guardiões da obra de Deus não é nem opcional nem marginal em relação ao nosso compromisso religioso como cristãos e muçulmanos: é uma parte essencial dela.

Que os pensamentos religiosos e as bênçãos que derivam do jejum, da oração e das boas obras possam sustentar-vos, com a ajuda de Deus, no caminho da paz e da bondade, a cuidar de todos os membros da família humana e de toda a criação!

É com estes sentimentos que vos desejamos, mais uma vez, serenidade, alegria e prosperidade.

Vaticano, 19 de maio de 2017

Jean-Louis Cardeal Tauran

 

 

 

 


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