Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 02/07/2019 às 16:49:50

“Eu e minha família serviremos o Senhor” (Js 24,15)

Para celebrar sua Padroeira, todos os anos, no domingo que segue à festa do Imaculado Coração de Maria, nossa Diocese realiza, sempre numa paróquia diferente, a Romaria da Unidade.

         Neste ano fomos recepcionados pela Paróquia Santo Antônio da cidade de Sertaneja. O tema da Romaria foi a família e o lema “Eu e minha família serviremos o Senhor” (Js 24,15).

         Foi um momento muito bonito em que se fizeram presentes irmãos e irmãs das 25 paróquias que compõe nossa Diocese. Enquanto evento, a romaria já passou. Seu tema, no entanto é permanente. Por isso, aproveito-me deste espaço que o nosso jornal “Páginas Católicas” todos os meses me reserva para partilhar alguns pensamentos sobre a importância da família na transmissão da fé às novas gerações.

         Começamos constatando a mudança do mundo e da sociedade. Em 2006, os bispos franceses, escreveram em um documento: “Um mundo desaparece e outro está emergindo, sem que exista nenhum modelo pré-estabelecido para a sua construção”. Os bispos espanhóis, por sua vez, em 2002, certamente com dor no coração, precisaram reconhecer que não estavam conseguindo transmitir a fé às jovens gerações.

         Aqui no Brasil, o Censo de 2010 constatou que a percentagem de católicos com menos de trinta anos diminuíra.

         Estamos vivendo uma verdadeira ditadura do relativismo, segundo o qual não existe uma verdade única e objetiva. Aliás, para os adeptos desta opinião não existe verdade, nem normas, nem valores permanentes. Não se pode mais falar em bem e mal, em certo e errado. O máximo que se pode dizer de nossas ações e comportamentos é que são adequados ou inadequados, oportunos ou inoportunos. Cada um deve acreditar e fazer o que é melhor para si. Eu sou a minha própria verdade, o meu próprio caminho.

Neste contexto, ressoam em vão as ameaças do profeta Isaías: “Ai dos que dizem que é bom àquilo que é mau, que dizem que é mau àquilo que é bom, que põem as trevas no lugar da luz e a luz no lugar das trevas, que põem o doce no lugar do amargo e o amargo no lugar do doce! Ai dos que são sábios aos próprios olhos, inteligentes diante de si mesmos! Ai dos que são valentes no beber vinho, corajosos em misturar bebidas! Subornados, absolvem o criminoso, negando ao justo um direito que é seu! Por isso, como a labareda queima o graveto e a palha desaparece na chama, assim a raiz deles apodrecerá, sua flor, qual poeira, vai-se embora, pois desprezaram a lei do Senhor dos exércitos, caçoaram da palavra do Santo de Israel. Por isso a ira do Senhor contra seu povo se inflamou e, para castigá-lo, o braço ele ergueu”. (Is 5,20-25).

Estudiosos das ciências humanas - psicólogos, sociólogos, antropólogos e tantos outros - têm concluído que a família é o melhor ambiente para fazer frente a esta onda de relativismo e permissivismo. Mesmo em famílias não perfeitamente ajustadas é possível formar pessoas que queiram e busquem viver num ambiente de respeito, justiça e verdadeiro diálogo.

Norman Dennis, professor de Estudos Sociais na Universidade de Newcatle (Inglaterra), num texto intitulado “Filhos do Divórcio” afirma que a razão do aumento da delinqüência não é o desemprego ou a pobreza, mas o colapso da vida familiar tradicional”.

A criminologista Patrícia Morgan numa pesquisa com jovens de 16 anos constata que dos jovens criados com o pai e a mãe apenas 8% aparecem perante as cortes de delinqüência juvenil, dos jovens criados apenas pela mãe, por causa da separação ou abandono, 16% e dos jovens criados pela mãe e padrasto, 19%.

Uma pesquisa feita nos USA mostra que metade dos filhos que têm pais divorciados afirmou não ter religião e dois terços dos que têm família unida se declaram religiosos.

A família, portanto, além de fonte de vida, é também a primeira e principal responsável pela transmissão da fé e dos valores humanos e cristãos. “A solução dos problemas sociais e familiares passa menos pela repressão e mais pela reestruturação da família” opina Luiz Fernando Oderich, presidente da ONG Brasil sem Grades.

Estas constatações das ciências humanas só vêm confirmar o ensinamento da Igreja novamente afirmado pelo Papa Francisco: “Apesar das dificuldades apresentadas pelo mundo atual a família deve continuar a ser lugar onde se ensina a perceber as razões e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo” (AL 287).


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