Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 03/04/2019 às 15:38:32

Mulher

Na liturgia do próximo domingo, o Evangelho nos coloca diante de uma mulher que corre o risco de ser apedrejada em praça pública, vítima, portanto, de cruel violência. Em nossos dias, de acordo com a ONU, uma em cada três mulheres do mundo experimenta violência física, ou sexual ao longo da vida. No Brasil, nos últimos tempos, a violência contra as mulheres tem crescido de forma assustadora. Assassinatos de mulheres são noticiados diariamente, nas mais diversas regiões do país. De acordo com Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 84 nações pesquisadas, somos a quinta mais perigosa para as mulheres. Só em janeiro deste ano de 2019, foram mais 100 casos. As mulheres negras, em idade reprodutiva e de baixa renda são as vítimas mais freqüentes. As armas usadas comumente são as de fogo (como o revolver) e a branca (como a faca). Segundo o Minist&eacu te;rio da Saúde, em 2017, dos 4.787 assassinatos de mulheres, 2.577 ocorreram por meio de armas de fogo e 1.101 por objetos perfurantes. Possuímos diversas políticas de proteção à mulher, como a Lei Maria da Penha, que entrou em vigor a partir de 2006 e a Lei do Feminicídio, aprovada em 2015, que determina pena de 12 a 30 anos de prisão, além de considerar o feminicídio crime hediondo. No entanto, as leis nem sempre funcionam. Por isso, continuamos a conviver com a rotina de uma mulher morta a cada duas horas. As causas de violência contra as mulheres, com certeza são muitas e profundas, contudo, os estudos apontam como as mais comuns, o desequilíbrio de poder, a subalternação e objetificação das mulheres, a exploração do trabalho delas. Para Isabel Solyszko, pós-doutora em gênero e desenvolvimento pela Universidade de los Andes, em Bogotá, “o feminicído ocorre na cotidianidade de uma sociedade patriarcal onde as mulheres são castigadas por meio da morte quando não cumprem com os papéis de gênero historicamente outorgados”. As raízes da violência contra a mulher, no entanto, são muito mais complexas e profundas do que estas apontadas acima pelos estudiosos. Tem suas origens em arquétipos culturais, como por exemplo, a oração que qualquer judeu piedoso fazia ao amanhecer: “Oh, Senhor muito obrigado por não ter nascido gentio, escravo e nem mulher”. Jesus se opôs a esta situação de exclusão e violência com que eram tratadas as mulheres pelos judeus. Enquanto as mulheres judias não tinham nenhuma participação na atividade dos rabinos e eram consideradas indignas de receber a instrução espiritual dada aos homens, Jesus, com muita naturalidade se cercava de mulheres, conversava com elas em público e se deixava acompanhar por um grupo delas. Sua atenção se dirigia em especial às que eram desprezadas (a samaritana, a pecadora pública, a adúltera, lembrada no evangelho do próximo domingo). Apesar do exemplo de Jesus, seus seguidores, imbuídos da cultura em que viviam, desde o início do cristianismo passaram a atacar as mulheres com palavras carregadas de violência: “Mulher, tu és a porta do diabo. Foste tu que tocastes a árvore de satã e que, em primeiro lugar violaste a lei divina” (Tertuliano). “Inferior ao homem, a mulher deve então ser-lhe submissa” (S. Agostinho). “A beleza física não vai além da pele. Se os homens vissem o que está sob a pele, a visão das mulheres lhes viraria o estômago. Quando nem sequer podemos tocar com a ponta do dedo um cuspe ou esterco, como podemos desejar abraçar esse saco de excremento?” (Odon, abade de Cluny). Das palavras com muita facilidade se chega aos fatos. Por isso, através da história, as mulheres foram vítimas constantes de graves violências. Felizmente os tempos mudaram. Hoje a Igreja, através dos seus maiores pastores, retorna aos ensinamentos de Cristo e assume a defesa das mulheres. Tomemos como exemplo apenas os dois últimos Papas. “Existem lugares e culturas em que a mulher é discriminada e subestimada unicamente pelo fato de ser mulher, onde se faz recurso até a argumentos religiosos e a pressões familiares, sociais e culturais para sustentar a desigualdade dos sexos, onde se perpetram atos de violência contra a mulher, tornando-a objeto de sevícia e de exploração na publicidade e na indústria do consumo e da diversão” (Bento XVI, em sua viagem ao Brasil em 2007) “Quero convidá-los a lutar contra uma praga que afeta o nosso continente americano: os inúmeros casos de feminicídio. E são muitas as situações de violência que são silenciadas por trás de tantas paredes. Convido-os a lutar contra esta fonte de sofrimento, pedindo que se promovam uma legislação e uma cultura de repúdio a toda forma de violência”. (Papa Francisco em 2018, na sua viagem ao Perú).


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