Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 13/03/2019 às 15:08:56

transfiguração de Jesus no monte Tabor

Estamos vivendo o tempo precioso da Quaresma que nos leva para a Páscoa do Senhor. No próximo domingo vamos nos deparar com a cena da transfiguração de Jesus no monte Tabor diante de três de seus discípulos: Pedro, Tiago e João.
Este episódio está situado entre dois anúncios da morte e ressurreição de Jesus. Um no versículo 22 e o outro no versículo 44 do capítulo 9, do evangelho de Lucas. Referindo-se a esta circunstância o Catecismo da Igreja Católica assim se expressa: “Por um instante, Jesus mostra sua glória divina, confirmando a confissão de Pedro. Mostrou também que para ‘entrar na glória’ (Lc 24,26), ele deve passar pela Cruz em Jerusalém”. Como fundamento de sua afirmação, o Catecismo cita um texto da festa da Transfiguração na liturgia bizantina: “Vós vos transfigurastes na montanha e, por quanto eram capazes, vossos discípulos contemplaram a vossa Glória, Cristo Deus, para que, quando vos vissem crucificado, compreendessem que a vossa Paixão era voluntária e anunciassem ao mundo que vós sois verdadeiramente a irradiação do Pai”. Continuando a reflexão, o catecismo afirma: “A Transfiguração dá-nos um antegozo da vinda gloriosa do Cristo, ‘que transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso’(Fl 3,21). Mas ela nos lembra também ‘que é preciso passar por muitas tribulações para entrarmos no Reino de Deus’ (At 14,22)”. Aqui o Catecismo cita Santo Agostinho, o grande filósofo e teólogo do início da Igreja: “Pedro ainda não tinha compreendido isso ao desejar viver com Cristo no monte. Ele reservou-te isto, Pedro, para depois da morte. Mas agora, ele mesmo diz: Desce para sofrer na terra, para servir na terra, para ser desprezado, crucificado na terra. Por que a vida também desceu para ser morta; o Pão desceu para ter fome; o Caminho desceu, para cansar-se da caminhada; a Fonte desceu, para ter sede, e tu recusas sofrer? Não busques tuas conveniências. Sê caridoso, prega a verdade e assim chegarás à eternidade, onde encontrarás segurança” (Sermão 78,6).
Este ensinamento foi constante na pregação da Igreja como atesta mais tarde o Papa São Leão Magno: “A principal finalidade dessa transfiguração era afastar dos discípulos o escândalo da cruz, para que a humilhação da paixão, voluntariamente suportada, não abalasse a fé daqueles a quem tinha sido revelada a excelência da dignidade oculta de Cristo.
Mas, segundo um desígnio não menos previdente, dava-se um fundamento sólido à esperança da santa Igreja, de modo que todo o Corpo de Cristo pudesse conhecer a transfiguração com que ele também seria enriquecido, e os seus membros pudessem contar com a promessa da participação daquela glória que primeiro resplandecera na Cabeça.
A esse respeito, o próprio Senhor, referindo-se à majestade de sua vinda havia dito: Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai(Mt 13,43). E o apóstolo Paulo declara a mesma coisa, dizendo: Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós (Rm 8,18. E ainda: Vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória (Cl 3,3-4)”. Um pouco mais adiante, no mesmo sermão, o Papa São Leão Magno afirma: “Estas coisas, caríssimos, não foram ditas apenas para a utilidade dos que as escutaram com os próprios ouvidos, mas nas pessoas dos três apóstolos, é toda a Igreja que compreende o que eles viram com seus olhos e ouviram com seus ouvidos. Reforce-se, portanto, a fé de todos segundo a pregação do santo Evangelho, e ninguém se envergonhe da cruz de Cristo, através da qual o mundo foi redimido. Por conseqüência, ninguém tenha medo de sofrer pela justiça (1Pd, 3,14), nem duvide de receber a recompensa prometida, pois é através da fadiga que se chega ao repouso, e através da morte que se chega à vida”.
A transfiguração de Jesus diante dos três apóstolos nos ensina, portanto, que para chegar à Glória é preciso passar pelo caminho da Cruz. Olhando para o Cristo transfigurado, a Igreja se dá conta de que para participar da Glória do Senhor, deve antes participar dos seus sofrimentos na Cruz, como aliás, ele, o Senhor, já havia alertado: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me” (Lc 9,23).


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