Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 06/03/2019 às 10:52:38

Quaresma -

 Desde o dia 06 de março deste ano de 2019, estamos vivendo o precioso tempo da Quaresma, período em que Deus nos convida, de modo especial, à conversão. 
Durante a Quaresma, somos convidados a renovar nossa vida de cristãos. A oração da coleta do primeiro Domingo é bem clara neste sentido: “Concedei-nos, ó Deus onipotente, que ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder ao seu amor por uma vida santa”.
Nos primórdios do cristianismo a Quaresma era marcada por duas categorias de cristãos: os catecúmenos, ou seja, os que estavam se preparando para receber o batismo e os penitentes que, tendo sido infiéis às promessas batismais, haviam cometido graves delitos contra a própria fé, e desejavam voltar a viver no seio da Igreja. 
Naquela época não era fácil ser cristão. A sociedade, majoritariamente pagã, colocava muitos obstáculos. Os que se dispunham assumir o batismo deviam estar bem conscientes dos perigos que haveriam de enfrentar. Um candidato ao batismo devia demonstrar que sua decisão era séria e madura. Por isso, passava por um processo de iniciação, chamado catecumenato, que durava, no mínimo, três anos. Na Quaresma do terceiro ano, as provas se intensificavam, com muito jejum, oração e prática de amor ao próximo.
Apesar do rigor deste processo, alguns depois do batismo não conseguiam ser fiéis aos compromissos assumidos. Cometiam graves delitos contra Deus e contra a comunidade. Desejando ser de novo acolhido entre os irmãos de fé, deviam entrar na “ordem dos penitentes”, um processo bem mais rigoroso do que o catecumenato. Era um processo que, além das provas, se caracterizava pela duração. Às vezes, durava vinte anos. Durante a Quaresma do último ano na “ordem dos penitentes”, as provas também se intensificavam.
Quando o batismo de crianças se generalizou e a penitência pública se transformou em penitência privada, o rigor foi se atenuando, tanto para os catecúmenos, quanto para os penitentes.
Hoje, a Quaresma é, por excelência, um período de “iniciação à vida cristã”, culminando com a celebração do batismo, ou a renovação das promessas batismais na Vigília Pascal. É, ao mesmo tempo, uma oportunidade de “reiniciação”, reorientação da comunidade à sua identidade cristã e eclesial, perdida pelo pecado em maior ou menor grau.
Dentro deste ambiente “catecúmeno-penitencial”, os cristãos, os católicos de modo especial, são convidados a rejuvenescer e a reavivar a própria fé, refletindo sobre a graça batismal, ou a retornar à vida de fé, se por infelicidade tenham dela se afastado.
A Quaresma, portanto, tem como objetivo levar os fiéis a se despojarem do “homem velho” que se corrompe ao sabor das paixões enganadoras; e a se revestirem do “homem novo”, criado à imagem de Deus, na verdadeira justiça e santidade (Ef 4,17-24).
O Batismo, a Penitência, a Eucaristia e todas as práticas próprias da Quaresma querem expressar e alimentar o processo de “iniciação” ou “reiniciação” à vida cristã.
Seria interessante se em nossas paróquias esta compreensão de Quaresma fosse realmente celebrada. Ouso sugerir um roteiro.

  1. Quarta Feira de Cinzas: celebração de imposição das cinzas nas comunidades. Poderia ser presidida pelo coordenador da comunidade.
  2. Primeiro Domingo: Celebração da Eleição, para os que estão na catequese em vista do Batismo ou da Crisma.
  3. Terceiro Domingo: Celebração de Purificação – Primeiro Escrutinio.
  4. Quarto Domingo: Celebração de Purificação – Segundo Escrutínio
  5. Quinto Domingo: Celebração de Purificação – Terceiro Escrutínio.
  6. Todas as Sextas Feiras “Via Sacra” com reflexão e orações a partir de um tipo de pecado social (violência, machismo, racismo, injustiça no mundo do trabalho, má distribuição das terras, etc). Ainda nas Sextas Feiras fazer jejum de alimento até o meio dia.
  7. Um dia por semana reunião dos grupos de famílias para rezar e refletir, a partir da Palavra de Deus (Bíblia) sobre o tema a ser rezado na “Via Sacra”. Estas reuniões devem se caracterizar mais pelo aspecto celebrativo do que reflexivo. Após cada reunião, o grupo deve se propor um compromisso para a semana. No início da reunião seguinte, se deve dar um espaço para que uma ou duas pessoas testemunhem como conseguiram viver o que foi assumido.
  8. Durante toda a Quaresma, atendimento de confissões individuais dois dias por semana, com horário previsto (inclusive à noite, até as 22h) pelo Pároco ou outro Padre.

Com certeza, este roteiro não poderá ser realizado por todos os paroquianos. Mas, se 10 por cento o puserem em prática, a Paróquia inteira vai perceber a Quaresma com outros olhos, de forma nova. Neste caso, é preciso ousar. Santa Quaresma para todos!


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