Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 20/02/2019 às 07:35:41

Reflexão

Nosso país é um dos mais violentos do mundo, especialmente no que tange à violência armada e homicídios. Somente em 2016, segundo informações do Ministério da Saúde, foram perpetrados 62.517 homicídios. Jovens negros são a maioria das vítimas. As mulheres também correm grande risco. Em comparação com outros países fomos classificados como um dos destinos mais perigosos do mundo para turistas mulheres. Em uma pesquisa do instituto Datafolha, realizada em maio de 2017, foi constatado que um em cada três brasileiros já teve um parente ou amigo assassinado. Foi também aferido que três em cada quatro brasileiros têm me do de ser assassinado. Uma ONG mexicana em 2014 identificou as 50 cidades mais violentas do mundo, 21 delas são brasileiras. Está tão enraizada a cultura da raiva e ódio em nosso meio, que as pessoas não se dão mais conta. Agridem, mesmo quando afirmam que têm amor. Acabam se contradizendo como é o caso de uma frase, escrita num muro, na rua Alberto Carazzai: “Em Cornélio existe amor, sim, seu bosta!”. A esta cultura da raiva e do ódio, é preciso contrapor, como pede o Papa Francisco, a “cultura do respeito e do encontro”, ou, a “Civilização do Amor” como já pedia o Papa, São Paulo VI, e os Pontífices que o sucederam. 
         “É bom educar para a cultura do respeito e  do encontro, única capaz de construir um futuro à altura do ideal do ser humano” (Papa Francisco).
         “O cristão sabe que o amor é o motivo pelo qual Deus entra em relação com o homem; e é o amor também que ele espera do homem como resposta. Por isso, o amor é a forma mais alta e mais nobre de relação dos seres humanos, inclusive entre si. Consequentemente o amor deverá animar todos os setores da vida humana, estendendo-se também à ordem internacional. Só uma humanidade onde reine a civilização do amor poderá gozar de uma paz autêntica e duradoura (João Paulo II).
         E claro que são várias e diversificadas as causas de toda violência. No entanto, não se pode negar que uma delas é a falta de vivência da Palavra de Deus. A proposta do amor incondicional, e universal, incluindo até mesmo o inimigo e os que nos odeiam e fazem mal, será, sem dúvida, um dos remédios para a superação de qualquer tipo de violência. São muitas as passagens bíblicas que contém este ensinamento. Os textos propostos para as leituras nas celebrações do próximo domingo são dois deles. 
         A primeira leitura, tirada do Primeiro Livro de Samuel, narra-nos que Davi, podendo vingar-se de seu perseguidor, o rei Saul, prefere perdoar e deixá-lo vivo. Os padres salesianos de Portugal, ao comentar esta passagem se perguntam: “Não é espantoso que, cerca de mil anos antes de Cristo, numa época de grande brutalidade, a catequese de Israel ensine que o perdão é a única saída para a violência? Não é espantosa esta certeza de que a vida do outro – mesmo a do agressor – pertence a Deus e que só Deus tem direito sobre ela? 
         No Evangelho, Jesus radicaliza o ensinamento do Antigo Testamento. São também os padres salesianos de Portugal que, comentando a passagem do Evangelho prescrita para ser lida na liturgia do próximo domingo, observam: “Normalmente, o amor e o perdão ao inimigo apareciam limitados aos adversários israelitas, aos compatriotas, àqueles a quem o crente vétero-testamentário estava ligado por laços étnicos, sociais familiares, religiosos. Em contrapartida, o ódio ao inimigo – a esse que não fazia parte do mesmo povo nem da mesma raça – parecia para o Antigo Testamento, algo natural (Sl 35).
         Jesus vai muito além do que a doutrina do Antigo Testamento. Para ele é preciso amar o próximo – e o próximo é, sem exceção o outro – mesmo o inimigo, mesmo o que nos odeia, mesmo aquele que nos calunia e amaldiçoa, mesmo aquele de que a história ou os ódios ancestrais nos separam. Os exemplos concretos que Jesus dá a este propósito sugerem que não basta evitar responder as ofensas. É preciso ir mais além, e inventar uma dinâmica de amor que desarme a violência, a agressividade, o ódio. Ele não nos pede, possivelmente que tenhamos uma atitude covarde, passiva ou colaborante perante a injustiça e a opress&at ilde;o. O que ele nos pede é que sejamos capazes de gestos concretos que invertam a espiral da violência e de ódio. Trata-se de não responder na “mesma moeda”. Trata-se de estar sempre disposto a acolher o outro, mesmo o que nos magoou e ofendeu. Trata-se de estar sempre de mão estendida para o irmão, sem nunca cortar as vias do diálogo e da compreensão. O amor e o perdão são a única forma de desarmar o ódio e a violência”.


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