Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 26/11/2018 às 16:02:40

Advento

Todas as religiões têm datas próprias para iniciar e terminar o ano. Estas datas quase sempre não coincidem com as do ano civil.

Nós cristãos católicos terminamos o nosso ano religioso no último sábado do tempo comum, ou seja, nas primeiras vésperas do domingo que cai no dia 30 de novembro ou do domingo que lhe fica mais próximo; e o iniciamos no dia seguinte com o primeiro domingo do Advento.

Advento é uma palavra que na cultura antiga tinha o significado de visita solene de um personagem importante. Para os cristãos lembra a vinda gloriosa do Cristo no fim dos tempos.

De acordo com as Normas do Ano Litúrgico, “O Tempo do Advento possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades de Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda do Cristo no fim dos tempos. Por este duplo motivo, o Tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa” (NALC 39).

Segundo a tradição da liturgia romana, esta piedosa e alegre expectativa se desenvolve durante quatro semanas. Seu suporte, como em todos os tempos litúrgicos, são os domingos.

Entre a celebração da primeira vinda e a expectativa da segunda acontece uma vinda intermediária. Cristo vem até nós de forma misteriosa, principalmente, através de sua Palavra, dos Sacramentos e dos Irmãos e das irmãs, especialmente daqueles mais empobrecidos e excluídos. Este dado da fé tem sua explicitação bem clara no II Prefácio do Advento: “Agora e em todos os tempos, ele vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização do seu Reino”.

Mais que a vinda de Cristo, nós na verdade, esperamos a chegada de seu Reino. João Batista, tentando preparar o povo Judeu para a vinda do Messias pregava a proximidade do Reino: “Arrependam-se, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2).

 Pius Parsch, grande promotor do Movimento Litúrgico, tentando esclarecer melhor este pensamento assim se expressa: “Lembremo-nos de que o Cristo nos deixou no Pai-Nosso aquela súplica que coloca todas as pessoas, de todos os tempos, em expectativa: Adveniat regnum tuum. Venha a nós o vosso Reino. Parece que este “adveniat” deu ao Advento o seu nome, que não é senão a súplica ardente da Oração Dominical desenvolvida e prolongada durante quatro semanas. O Advento não é portanto outra coisa senão a súplica insistente, o desejo ardente, de que se aproxime o Reino de Deus”.

As leituras feitas nas celebrações durante o Advento apresentam Cristo como aquele que prometeu voltar, orientando-nos para que vigiemos e esperemos a sua volta. A vida cristã, por isso, se caracteriza pela esperança e pela vigilância, já que não sabemos nem o dia nem a hora em que o Senhor vai chegar.

Nos quatro prefácios próprios deste tempo litúrgico continua o clima de expectativa e vigilância. “Revestido de nossa fragilidade, ele veio a primeira vez para realizar seu eternos plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação. Revestido de sua glória ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que hoje, vigilantes esperamos” (I Prefácio). “Vós preferistes ocultar o dia e a hora em que Cristo, vosso Filho, Senhor e Juiz da História, aparecerá nas nuvens do céu, revestido de poder e majestade. Naquele tremendo e glorioso dia, passará o mundo presente e surgirá novo céu e nova terra” (II Prefácio).

A cor litúrgica é o roxo porque o Advento é o tempo em que se misturam alegria e renúncia. Enquanto nos alegramos com a vinda do Senhor, somos chamados à conversão que exige penitência.

O Advento se divide em duas grandes partes. A primeira compreende as duas primeiras semanas que acentuam a expectativa escatológica. Pedimos para que “caminhando entre as coisas que passam, abracemos as que não passam”; para que “coloquemos nossas esperanças nos bens eternos”  e para que “ nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do Senhor que vem”. A segunda parte, que compreende as duas últimas semanas, se volta mais para o Nascimento do Senhor. Começa com um canto de alegria: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto.

Aproveitemos bem este tempo que a Igreja, através de sua liturgia, nos coloca à disposição, pois como nos lembra o grande liturgista Romano Guardini: “O Senhor veio uma vez para todos, mas ele deve vir sempre de novo para cada um de nós”.


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