Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 01/11/2018 às 09:05:03

Solenidade de Todos os Santos

  No próximo domingo a Igreja católica do Brasil celebra a solenidade de Todos os Santos que estão com Cristo na glória. Na verdade, o martirológio romano prevê esta celebração para o dia 1º de novembro, mas como em nosso país, não se faz feriado neste dia, a Igreja transfere a celebração para o Domingo.

         A Solenidade de Todos os Santos é muito antiga. Começou em Antioquia, no século IV, e era celebrada no 1º Domingo depois de Pentecostes. O Papa Gregório IV, no século VII, a transferiu para o dia 1º de novembro, no fim do Ano litúrgico para simbolizar a consumação gloriosa do Reino de Cristo e a segunda vinda do Salvador.

         Em nossa Igreja, as celebrações, além de ser culto a Deus e aos seus santos, têm também uma motivação pedagógica. Deus contemplado em seus mistérios e a vida dos santos celebrados na liturgia motivam-nos a viver com mais intensidade nossa vocação.

         “Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque ‘a vontade de Deus é que sejamos santos’ (1Ts 4,3)”.

         O Papa Francisco no mês de março deste ano de 2018 escreveu uma “Exortação Apostólica” a fim de, “fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós ‘para sermos santos e íntegros diante dele no amor’ (Ef 1,4)”. Lembra-nos o Papa que Deus “quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”.

         Ao refletir sobre a vocação à santidade, é preciso lembrar, em primeiro lugar, que o ser santo não é apanágio dos católicos. Isto já foi lembrado pelo Papa São Paulo VI. O Papa São João Paulo II também afirmou que o “testemunho, dado por Cristo até o derramamento do sangue, tornou-se patrimônio comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes”. Penso que podemos ser um pouco mais ousados e perceber santidade também nos seguidores de religiões não cristãs. Gandhi, por exemplo, que era budista, com toda a probabilidade está junto de Deus, gozando da glória dos justos, a mesma coisa se poderia dizer de vários místicos do islamismo.

         Na recitação do Símbolo Apostólico professamos nossa fé na comunhão dos santos. De fato, “os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantém conosco laços de amor e comunhão”. Nas palavras do Papa emérito, Bento XVI, podemos dizer que “estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. (...). Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carrega sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me”.

         Outro ensinamento do Papa Francisco em sua “Exortação Apostólica”, nada novo aliás, é que a santidade não tem nada de extraordinário. “Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim”. Na normalidade da vida, nós nos tornamos santos. Os pais se santificam na medida em que se esforçam para criarem os filhos, os homens e as mulheres se santificam através do trabalho diuturno com o objetivo de trazer o pão para casa, os doentes e os idosos se santificam quando mantém o sorriso e a alegria, apesar dos percalços da dor e talv ez da solidão e do abandono. A esta santidade na normalidade da vida o Papa chama de santidade “ao pé da porta” ou “classe média da santidade”.

         É também importante esclarecer que santidade não é sinônimo de perfeição moral. “Nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida, o seu caminho inteiro de santificação, aquela figura que reflete algo de Jesus Cristo e que sobressai quando se consegue compor o sentido da totalidade da sua pessoa”. Esta constatação, com certeza é para nós, frágeis pecadores, um grande estímulo. Neste sentido o Papa nos faz o seguinte apelo: “Também tu precisas conceber a totalidade de tua vida como uma missão. Tenta fazê-lo, escutando a Deus na oração e identificando o s sinais que ele de dá. Pede sempre, ao Espírito Santo, o que espera Jesus de ti em cada momento de tua vida e em cada opção que tenhas de tomar, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão. E permite-lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus no mundo de hoje”. Continuando seu apelo o Papa afirma: “A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro de tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida “existe apenas uma tristeza: a de não ser santo”.


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