Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 20/09/2018 às 16:23:18

Qual sua disponibilidade ao serviço?

 

 

         A Palavra de Deus é de uma profundidade inesgotável. É como uma fonte: quanto mais se tira, tanto mais água surge.

         O Evangelho que será proclamado nas celebrações do próximo domingo é extraído do evangelho de Marcos. Dentre as muitas propostas para a vida cristã, chama-me a atenção o apelo de Jesus à disponibilidade ao serviço. “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos” (Mc 9,35).

         Entende-se logo que o cristão que não está disposto a servir, não é de fato cristão. A mesma coisa que dizia Santo Agostinho a respeito do bispo, se pode dizer a respeito de qualquer cristão. “Ser cristão é nome designativo de serviço, não de honras ou de dignidade”. De que aproveita um maltrapilho, morador de rua, chamar-se Felix (Feliz). Se acolhes em tua casa um mendigo cheio de misérias, chamado Felix, e dizes a ele: “Felix vem para cá, Felix vai para lá, Felix levanta-te, Felix senta-te, ele, apesar da múltipla repetição de seu nome, continuará sendo um infeliz. Semelhante a este homem é o que se intitula cristão, mas não o é, porque não tem no seu cora ção a disposição de servir.

         No dia 23 de setembro de 1979, comentando esta passagem do Evangelho que vai ser proclamado no próximo domingo, o Arcebispo de El Salvador, Dom Oscar Romero que, no próximo mês de outubro, será declarado oficialmente santo pelo Papa Francisco, fez a seguinte reflexão:

         “Nós nos esquecemos do verdadeiro espírito cristão e estamos pensando que é maior quem pode mais, quem tem mais dinheiro, quem manda mais na política. Estas grandezas da terra, para Cristo não tem nenhum valor. Se, por acaso, alguém ocupar um posto mais alto na política, na sociedade, ou nas instituições financeiras, não deve fazer consistir sua grandeza nessas coisas materiais que nos escapam das mãos quando menos esperamos.

         A verdadeira grandeza – diz Cristo – o que quiser ser grande entre vocês, o que quiser ser o primeiro, faça-se o último e seja servidor de todos. Se um homem, por necessidade da sociedade for eleito Ministro, Presidente da República, Arcebispo, é um servidor do povo de Deus. Não poderá esquecer! A atitude que deve tomar nesses cargos não é dizer: “Eu mando, e aqui se faz o que eu quero”. Quem possui um cargo, nada mais é do que homem Ministro de Deus, depende das mãos do Senhor para servir o povo, segundo a vontade de Deus e não de seus caprichos. (...).

         Quando Cristo organizou a sua Igreja, ensinou a seus apóstolos a verdadeira característica da Igreja. Outro nome dado à Igreja é: diaconia. É uma palavra grega que significa “serviço”. A palavra nasceu quando os apóstolos já não eram suficientes para atender os cristãos que iam crescendo em número. Então chamaram sete homens cheios do Espírito de Deus e os denominaram diáconos. Diáconos quer dizer servidores. Então também foi dado à Igreja o nome de diaconia, serviço. A Igreja é serviço”.

         Este ensinamento de Cristo sempre encontrou resistência. No Evangelho, Marcos tenta uma justificativa dizendo que “os discípulos não compreendiam essas palavras”. Gustavo Gutierrez, no entanto, acha que não se trata de incompreensão, mas de ambição do prestígio e do poder. Para Gutierrez, “a busca de honras, o desejo de ser o centro de decisões, a autocomplacência na autoridade de que se está investido, são tentações existentes no próprio interior da Igreja. Trata-se de uma profunda perversão da mensagem do Senhor que nos lembra mais uma vez, que a marca de seus seguidores é ser “o último, e aquele que serve a todos”.

Este fenômeno chama-se clericalismo com conseqüências nefastas para a Igreja nos últimos tempos, tais como o abuso sexual com menores e o abuso de poder e de consciência.

         O clericalismo, na opinião do Papa Francisco, não é só dos clérigos, é um comportamento que diz respeito a todos os cristãos que não se dispõem a servir. A Igreja que não se coloca em disposição de serviço é somente uma fumaça. O clericalismo deforma o rosto da Igreja.  Coloca bispos e padres como patrões e leigos e leigas como servos e empregados.

“A falta de consciência de pertencer ao Povo de Deus como servidores pode levar-nos a uma das tentações que mais danifica o dinamismo missionário, que somos chamados a promover”


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