Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 16/08/2018 às 12:50:26

Romaria da Terra

A Palavra de Deus, contida na Bíblia, nos assegura que “ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela encerra” (Sl 24,1). A Palavra de Deus afirma também que a terra é dom de Deus para seu povo (Jr 2,7). Um dom, no entanto, não absoluto. Por isso, segundo a Bíblia, as terras não podem ser vendidas a titulo definitivo (Lv 25,23), e o seu uso deve ser feito sob condições, ou seja, sob normas que impeçam todo e qualquer tipo de exploração. Na Bíblia, o crime do roubo de terra, ou seja, da grilagem, assume maldade especial, pois condena os descendentes de uma família à miséria e à escravidão.

         Nos tempos bíblicos, o acúmulo de terra é condenado com muita severidade.

         Maldito quem remover os marcos do vizinho! (Dt 27,17).

         O Senhor destrói a casa dos soberbos, mas fixa os marcos do terreno da viúva (Pr 15,25).

         Não toques nos marcos do terreno da viúva e não invadas o campo dos órfãos: pois seu Vingador é forte e defenderá a causa deles contra ti (Pr 23,10-11)

         Ai dos que vivem maquinando a maldade, planejando seus golpes, deitados na cama. É só o dia amanhecer, vão executar, porque está ao seu alcance. Se desejam um terreno, roubam-no, querem uma casa, ficam com ela. Tomam posse da casa e do dono, do terreno e do proprietário. Por isso mesmo, assim diz o Senhor: “Estou maquinando contra essa gente uma desgraça; dela não podereis afastar o pescoço, nem podereis andar de cabeça erguida”(Mq 2,1-3).

         Apesar da clareza destas leis, entre o povo de Israel e também mais tarde, entre os cristãos sempre houve quem possuísse terras, cujos donos não sabiam precisar os limites e quem não tinha nem onde cair morto.

         No Brasil o conflito por terra existe desde o tempo da colonização: concentração nas mãos das ricas oligarquias e resistência dos pobres contra sua desapropriação e destruição. Ultimamente este conflito tem crescido sempre mais.

No dia 27 de março de 2018, Pe. José Amaro Lopes de Souza, pároco da paróquia de Santa Luzia, na cidade de Anapu, e defensor dos direitos humanos, da regularização fundiária, da reforma agrária e dos assentamentos dos sem terra, foi preso, sob alegação de extorsão, assédio sexual e ocupação violenta de terras. O padre é o líder social mais influente contra desmatadores e fazendeiros da região. Ele sempre se colocou ao lado dos sem terra, por isso sua prisão foi montada por aqueles fazendeiros, com a colaboração da Polícia, do Ministério Público e do Judiciário da cidade.

A situação no Estado do Paraná, não é diferente. No dia 07 de dezembro do ano passado, na comunidade de Alecrim, no município de Pinhão, cerca de 20 famílias assistiram, sem nada poder fazer, a destruição de suas casas e benfeitorias, bem como a demolição do posto de saúde, de uma padaria comunitária, da igreja e de espaços de lazer. Foi o cumprimento de uma reintegração de posse determinada pelo Superior Tribunal de Justiça em favor das Indústrias João José Zattar S.A.. Esta empresa é uma das maiores devedoras da União. Entre as famílias despejadas, algumas delas moravam há mais de 20 anos na comunidade. Segundo o Prefeito da cidade, o que acontec eu com os moradores de Alecrim pode acontecer com mais 14 mil pessoas que estão na mesma situação, no município de Pinhão. Todos estão sob grande tensão.

Desde 1978, a Igreja católica promove, através da Comissão Pastoral da Terra (CPT), nos vários estados do Brasil, as Romarias da Terra. Sua finalidade é apoiar as organizações dos camponeses e trabalhadores do campo e suas lutas pela terra e na terra e o respeito pelo uso sustentável que delas fazem.

No próximo domingo, 19 de agosto, em Barbosa Ferraz, Diocese de Campo Mourão, acontecerá a 31ª Romaria da Terra do Paraná. Os romeiros estão sendo motivados pelo lema: “Com Direito, Justiça e Paz, supera-se a Violência no Campo”.

As Romarias da Terra não deixam de ser gestos políticos. Mas sua motivação maior é a fé na promessa feita por Deus: “os pobres possuirão a terra e se alegrarão com uma paz imensa” (Sl 37,11).

Iluminada por esta fé, a Igreja tem a obrigação de apoiar camponeses sem terra, pequenos agricultores e demais trabalhadores do campo nas organizações e lutas por seus direitos. Os cristãos como exortou o Papa Francisco “não podem perder sua fé revolucionária”.  

Possa a 31ª Romaria da Terra do Estado do Paraná ser mais uma oportunidade de reafirmarmos nossa fidelidade à missão de denunciar o pecado da idolatria da propriedade, da riqueza e do poder que é causa da violência que sempre acompanha a luta pela terra.

 


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