Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 18/07/2018 às 14:18:17

Festa de Santa Maria Madalena

No próximo dia 22, se não fosse domingo, nós católicos do mundo inteiro estaríamos celebrando a festa de Santa Maria Madalena, Apóstola dos Apóstolos.

         A liturgia católica distingue, para suas celebrações, três categorias: solenidades, festas e memórias, conforme a importância de cada uma delas.

         As solenidades, como o nome diz, são celebrações mais solenes que começam no dia anterior com as Primeiras Vésperas e a Missa da Vigília.

         As festas já são menos solenes. São celebradas num único dia. Nas Missas, as orações, leituras e cantos geralmente são próprios daquela celebração. Canta-se o Glória e recita-se o Credo. Se a santa ou o santo for o padroeiro principal faz-se a segunda leitura.

         As memórias podem ser obrigatórias ou facultativas. São celebrações que ocorrem durante a semana e fazem uma simples recordação do respectivo santo ou santa.

         Certas celebrações, dependendo das circunstâncias, podem mudar de categoria. Foi o que aconteceu com a memória obrigatória de Santa Maria Madalena que, por vontade expressa do Papa Francisco, foi elevada para a categoria de festa com prefácio próprio, intitulado “Apóstola dos Apóstolos”.

         De acordo com a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, responsável pelo Decreto que estabeleceu o novo grau celebrativo, a decisão do Papa inscreve-se no atual contexto eclesial que pede uma reflexão maior e mais profunda sobre a dignidade da mulher.

         “Na nossa época, dado que a Igreja é chamada a refletir de forma mais profunda sobre a dignidade da mulher, pareceu oportuno também que o exemplo de Santa Maria Madalena fosse mais convenientemente proposto aos fiéis. Com efeito, esta mulher, conhecida como aquela que amou Cristo e foi também muito amada por Cristo, chamada por São Tomás de Aquino “apóstola dos apóstolos”, hoje pode ser vista pelos fiéis como paradigma da missão das mulheres na Igreja”.

         Na liturgia anterior à reforma determinada pelo Concílio Vaticano II, Santa Maria Madalena era celebrada como “pecadora penitente”. Isto aconteceu por causa de um erro de leitura dos evangelhos que considerou, como se fosse uma só mulher, a pecadora anônima que ungiu os pés de Jesus na casa de Simão, o fariseu (Lc 7,36), Maria, a irmã de Lázaro e de Marta que também ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos (Jo 12,3) e Maria Madalena, de quem Jesus expulsou sete demônios, e foi uma das mulheres que seguiam e serviam Jesus com seus bens (Lc 8,1-3; Mt 27,55-56; Mc 15,40-41).

         Maria Madalena, com certeza, foi uma liderança de destaque no início da Igreja. Nos vários relatos em que aparece o grupo de mulheres “seguindo e servindo” Jesus, Maria Madalena está à frente, assim como Pedro é sempre o primeiro nas listas em que os evangelhos apresentam os Doze. Mais ainda: os nomes das mulheres do grupo variam, o nome de Maria Madalena, no entanto, nunca é esquecido e sempre aparece em primeiro lugar.

         Para nós cristãos, a ressurreição de Jesus é o fundamento de nossa fé. Sem ressurreição não é possível a existência do cristianismo. “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé” (1Cor 15,14). Daí a importância de Maria Madalena no início da Igreja. Ela foi a primeira a ver Cristo ressuscitado e a primeira a anunciar a Boa Nova da ressurreição, inclusive, aos Apóstolos, tornando-se assim “Apóstola dos Apóstolos”.

         No entanto, muito cedo começaram a aparecer dificuldades para se manter a memória de Maria Madalena como uma das principais lideranças na Igreja. A cultura machista de então, não valorizava o testemunho de mulheres. O escritor pagão Celso gozava dos cristãos que fundamentavam sua fé no testemunho de “umas mulheres histéricas”.

         Uma leitura feminista da Bíblia opina que a transformação de Maria Madalena em “pecadora arrependida” permitiu eliminar o seu papel de apóstola durante mais de mil anos e serviu também para bloquear o papel das mulheres na Igreja.

         Com a reforma litúrgica, prescrita pelo Concílio Vaticano II, começa o resgate da verdadeira Maria Madalena. Os textos, tanto da Liturgia das Horas, quanto da Missa colocam-na cheia de coragem ao pé da cruz e, transbordante de alegria, anunciando a ressurreição.   

         Segundo o Secretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, o Arcebispo Arthur Roche, a decisão do Papa Francisco tem a intenção explicita de corrigir o erro histórico. De fato, “exatamente porque foi testemunha ocular de Cristo Ressuscitado, foi também a primeira a dar testemunho diante dos apóstolos. (...). Por isso, é mais apropriado que a celebração litúrgica desta mulher tenha o mesmo grau de festa que as celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral, revelando a especial missão desta mulher, que é exemplo e modelo para cada mulher na Igreja”.


envie seu comentário »

Veja Também

Veja + Palavra do bispo