Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 13/07/2018 às 08:41:02

Reflexão da Semana - Profetismo

A primeira leitura que será proclamada nas celebrações do próximo domingo, o 15º do Tempo Comum, apresenta-nos com muita força a figura ímpar do profeta Amós e esclarece-nos em que consiste o verdadeiro profetismo.

Antes de tudo, profetismo não é profissão, mas sim, vocação. O profeta é um escolhido e enviado por Deus. Só pode pregar quem foi enviado. O profeta Amós, ao responder ao sacerdote Amasias, põe às claras esta exigência: “Não sou profeta (de profissão) nem filho de profeta (por sucessão); sou pastor de gado e cultivo sicômoros. O Senhor chamou-me quando eu tangia o rebanho, e o Senhor me disse: Vai profetizar para Israel, meu povo” (Am 7,15).

Já no domingo passado, o profeta Ezequiel havia declarado: “Naqueles dias, depois de me ter falado, entrou em mim um espírito que me pôs de pé. Então eu ouvi aquele que me falava, o qual me disse: Filho do homem, eu te envio aos israelitas, e tu lhes dirás: Assim diz o Senhor Deus. Quer te escutem, quer não – pois são um bando de rebeldes – ficaram sabendo que houve entre eles um profeta” (Ez 2,2-5).

O profeta é uma pessoa despojada de bens e consequentemente é alguém que experimenta a liberdade. Foi assim que o profeta Amós se sentiu diante do sacerdote Amasias ao expulsá-lo de Betel. “Não te preocupes! Eu não sou profeta de profissão. Não vim aqui por negócios, muito menos para fazer concorrência contigo. Vim porque o Senhor me chamou e me disse: Vai profetizar para Israel, meu povo”. Dom Oscar Romero, o mártir salvadorenho que vai ser canonizado em outubro próximo, comentando esta passagem afirmou: “Esta é a liberdade dos verdadeiros grandes que são os pobres de espírito evangélico”.

Neste ano estamos vivendo o “Ano do leigo e da Leiga”. Há cinqüenta anos, o Concílio Vaticano II chamou a nossa atenção para a dimensão profética do leigo e da leiga na vida da Igreja com estas palavras: “Cristo o grande Profeta que proclamou o Reino do Pai, exerce seu múnus profético não só através da Hierarquia que ensina em seu nome e com seu poder, mas também através dos leigos. Por esta razão constituiu-os testemunhas e ornou-os com o senso da fé e a graça da Palavra (cf At 2,17-18; Apc 19.10), para que brilhe a força do Evangelho na vida cotidiana, familiar e nas estruturas da vida secular” (LG 35/88).

Vejam o que falou, no dia 15 de julho de 1979, em sua homilia dominical, o Beato Oscar Romero, naquela época, arcebispo de El Salvador, comentando a primeira leitura do próximo domingo e chamando a atenção para o perigo dos falsos profetas.

“Qual foi o triste papel de Amasias? Vocês viram na leitura de hoje. Primeiro opor-se à voz do verdadeiro profeta. “Vidente, sai e procura refúgio em Judá, onde possas ganhar teu pão e exercer a profecia”. O falso profeta confunde a missão profética com interesses econômicos. Como é terrível subordinar a missão sacerdotal ou profética a interesses econômicos. Quantas vezes, queridos irmãos – estou falando a vocês leigos que são povo profético de Deus – ao conseguir um posto na política, já não são mais os mesmos de antes! Quantas traições teremos que lamentar! Em certas cartas, onde manifestam uma amarga amizade, me dizem: “O Senhor compreende, eu não posso pensar como o Senhor, porque irei perder o emprego, não vou ter esta vantagem que me foi dada”. Assim temos muitas subordinações como o profeta Amasias que pensava que sua missão era “ganhar o pão” e achava que também Amós profetizava por ofício. No entanto, esbarrou-se com um homem independente e livre: “Não trabalho pelo pão, nem por dinheiro, eu vim, porque o Senhor de Israel me enviou”.

Além de fazer da profecia um ofício, Amasias também se submetia a interesses políticos, quando diz a Amós: “Em Betel não deverás insistir em profetizar, porque aqui fica o santuário do rei e a corte do reino. Aqui tem que falar como o rei quer”. Neste momento Amós se pareceu com Pedro: “É preciso obedecer mais a Deus do que aos homens”. Não podemos trabalhar apenas para ficar de bem com os que estão no poder. Nossa palavra em nome de Deus deve ser dita denunciando tantas injustiças. Existem muitas maneiras de ser cúmplice de mãos criminosas! A Igreja não pode se complicar com tudo isso, tem que dizer sua palavra ainda que soe mal àqueles que como Amasias têm que respeitar mais a voz de seu rei do que a mensagem de seu Deus”.


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