Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 12/06/2018 às 17:11:29

Orientação sobre a venda de bebidas alcoólicas nas festas

Não banques o valente com o vinho, pois a muitos o álcool derrubou

(Eclo 31,25)

 

 

Faz algum tempo que os Bispos do Regional Sul II – Paraná – têm insistido para que as bebidas alcoólicas sejam proibidas nas festas e eventos religiosos. Durante a 56ª Assembleia Geral da CNBB em Aparecida, voltaram a insistir, produzindo um vídeo e um texto para ser lido.

Na última reunião do clero de nossa Diocese, no dia 11 de maio, apresentei o assunto. Depois de lido o Documento e visto o vídeo houve uma troca de opiniões.

Alguns acham que não deve haver uma proibição absoluta. Afinal de contas, o próprio Jesus transformou água em vinho e, com certeza, também bebia vinho, tanto que foi acusado de comilão e bebedor de vinho (Lc 7,34). Além disso, na última Ceia, tomou o cálice com vinho e entregou aos discípulos dizendo-lhes: Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos (Mc 14,24). Na Eucaristia, Jesus se faz presente para nós numa porção de vinho. Na missa, na oração de apresentação do vinho o padre reza: Bendito sejais, Senhor Deus do Universo, pelo vinho que recebemos de vossa bondade, fruto da videira e do trabalho humano e que agora vos apresentamos e que para nós se vai tornar vinho da salvação.

Não se pode negar que na Bíblia encontram-se muitas passagens nas quais, não só é permitido, mas até recomendado o uso do vinho.

            Ao discípulo e amigo Timóteo, São Paulo aconselha: Não continue a beber somente água; tome um pouco de vinho, por causa do estômago e das frequentes fraquezas que você tem (1 Tm 5,23)O vinho alegra o coração do homem afirma o salmista (Sl 104,15) e, segundo o Cântico dos Cânticos pode ser comparado ao amor: Seus amores são melhores do que o vinho (Ct 1,2).

No entanto, com muito mais frequência a Bíblia alerta para os perigos e prejuízos que o vinho representa.

Para quem os ais? Para quem os lamentos? Para quem as rixas? Para quem as queixas? Para quem as feridas sem motivos? Para quem as lágrimas nos olhos? Para os que se entretém com vinho e andam procurando bebidas fortes. Não te fascines com o vinho quando avermelha, quando rebrilha no cálice o seu colorido e entra suavemente para dentro... No fim morderá como cobra e picará como a víbora (Pv 23,29-32).

Bebido em excesso, o vinho produz irritação, ira e ruínas. Vinho tomado em excesso é amargura para a alma com irritação e ruína. A embriaguez aumenta o furor do insensato para fazê-lo cair, diminuindo-lhe a força e abrindo as feridas (Eclo 31,38-40).

Aos coríntios, São Paulo adverte: Concretamente vos escrevi que não vos mistureis com alguém que leva o nome de irmão e é imoral... ou beberão. Com tal pessoa nem se deve tomar refeição! (1Cor 5,11). Aos gálatas, o mesmo Apóstolo admoesta: ...invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Eu vos previno, com aliás já o fiz: os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus (Gl 5,21). E aos efésios ordena: Não vos embriagueis com vinho, pois isso leva ao descontrole (Ef 5,18).

Além dessas orientações bíblicas, é preciso constatar que o álcool é um problema de ordem social, político e de saúde. Quem de nós não conheceu, ou não tem algum parente que morreu ou se deu mal na vida por conta do álcool? Quantas famílias desestruturadas por que um de seus membros, bêbado, espanca os outros e põe tudo a perder?

De acordo com o Relatório Global sobre Álcool e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2012, 15% das mortes decorrentes de acidentes de trânsito no mundo foram atribuídas ao álcool. No Brasil, no mesmo ano, 18% dos acidentes de trânsito entre homens e 5,2% entre mulheres, foram causados pelo uso de bebidas alcoólicas.

Precisamos, irmãos e irmãs, nos atentarmos também para a violência que o álcool proporciona nas nossas casas. O tema da Campanha da Fraternidade deste ano de 2018 foi a superação da violência. Nós católicos não podemos nos contradizer: pregar contra a violência e, ao mesmo tempo, promovê-la através do consumo de bebidas alcoólicas nas festas de igreja. Os membros dos Conselhos Econômicos das paróquias reclamam que as bebidas alcoólicas, além de aumentar os custos com segurança, fazem com que trabalhem até mais tarde nos dias de festa.

Portanto, quero reafirmar a orientação para que os vários conselhos das comunidades, bem como os coordenadores e todos os membros de nossas paróquias reflitam e se conscientizem de que o consumo de álcool pode matar. Algumas paróquias de nossa diocese já caminham sem álcool. Lembro que não é fácil. Haverá muitas críticas e resistência. Mas, coragem! Temos um longo caminho a percorrer (1Rs 19,17). Estamos dando o primeiro passo. Este artigo é para animá-los e apoiar as iniciativas que, pela força do Espírito Santo, vão surgir. As comunidades que já aboliram as bebidas de suas festas estão de parabéns. As demais estão motivadas a tomarem a discussão e, num futuro muito próximo, imitá-las.

Que nossa Senhora em seu Imaculado Coração, padroeira de nossa diocese, proteja a todos e alcance de seu divino Filho a graça da compreensão e da decisão de não mais consumir bebidas alcóolicas em nossas festas.

 


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