Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 24/10/2017 às 16:25:44

Reforma Luterana

No próximo dia 31 de outubro encerram-se, no mundo inteiro, as comemorações do quinto centenário da Reforma Luterana. As celebrações começaram a ser preparadas em 2013 com a publicação do documento “Do conflito à Comunhão”. Trata-se de um texto produzido e editado pela Comissão Católico-Luterana Internacional.

         Para a maioria dos católicos, Martinho Lutero ainda é visto a partir do que escreveu Cochaleus, um padre contemporâneo de Lutero que se opunha radicalmente às suas idéias. “Cochaleus caracterizou Lutero como um monge apóstata, um destruidor do cristianismo, um corruptor da moral e um herético”.

Hoje somos convidados a ver Lutero como alguém que “superou em si mesmo um catolicismo que não era inteiramente católico”. Já não podemos mais negar que Martinho Lutero foi uma personalidade profundamente religiosa que buscou com sinceridade e dedicação a mensagem do evangelho. Embora tenha importunado as autoridades da Igreja, ele preservou notável parte do patrimônio da antiga fé católica. O Concílio Vaticano II, quatro séculos atrasado, assumiu várias reivindicações de Lutero. Citemos algumas:

- O enfoque do caráter normativo da Escritura Sagrada para a vida e doutrina da Igreja (DV 11);

- A definição da Igreja como Povo de Deus (LG 9);

- A afirmação da necessidade da permanente renovação da Igreja em sua existência histórica (LG 8; UR 6);

- A ênfase sobre o sacerdócio universal de todos os batizados (LG 10 e 11; AA 2-4);

- A interpretação dos ministérios eclesiais como serviço (CD 16; PO 9);

- O empenho pelo direito da pessoa à liberdade em assuntos de religião (DH);

- A celebração da missa na língua do país (SC 54);

Ao encerrar as celebrações dos Quinhentos anos da Reforma e no contexto dos trezentos anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, acredito ser interessante conhecer melhor o pensamento do Reformador sobre a “doce Mãe de Cristo”.  Passo a citar ao pé da letra pensamentos de Lutero expressos em seu comentário ao Magnificat.

Maria canta: “grandes coisas me fez aquele que é poderoso”. “As grandes coisas nada são senão o fato de Maria ter chegado a ser a Mãe de Deus. Nesta obra lhe foram dadas tantas e tão grandes obras que ninguém as pode compreender; pois é nisso que reside toda a sua honra e bem-aventurança, é esse o motivo pelo qual ela é uma pessoa singular dentre todo o gênero humano. Pois ninguém se iguala a ela, porque ela tem um filho com o Pai celeste, e que filho. Ela própria é incapaz de descrever este acontecimento por ser demasiado grande. Tem que limitar-se a que, sem seu fervor, irrompa e borbulhe, dizendo que são grandes coisas que não se podem esgotar nem mensurar em palavras. Por isso, toda a sua honra foi resumida em uma só palavra, a saber, quando se lhe chama mãe de Deus. Ninguém pode dizer coisa mais sublime dela e a ela, ainda que tivesse tantas línguas como existem folhas, ervas, estrelas no céu e areia no mar. Também é preciso meditar no coração o que significa ser mãe de Deus. Ela atribui inteiramente à graça de Deus, não a seu mérito. Pois, embora tivesse sido sem pecado, essa graça era tão superior a tudo que, de modo algum, ela era digna dela. Como poderia uma criatura ser digna de ser a Mãe de Deus?”.

Com relação ao culto à Maria são muito claras as palavras de Lutero.

“Maria não quer ser um ídolo. Ela nada faz, Deus é que faz todas as coisas. Devemos invocá-la a fim de que, por amor dela, Deus conceda e faça o que pedimos. No mesmo sentido também se devem invocar todos os demais santos, para que, em todos os casos, a obra seja sempre exclusiva de Deus. Por isso ela acrescenta: “E santo é seu nome”. Isso significa: assim como não me arrogo a obra, também não me arrogo o nome e a honra. Pois a honra e o nome competem somente àquele que realiza a obra. Não é justo que um faça a obra e outro leve o nome e receba a honra. Eu sou apenas a oficina na qual ele trabalha, mas nada contribuí para a obra. Por isso ninguém me deve louvar nem dar-me honra por me ter tornado a mãe de Deus. Mas deve-se honrar e louvar em mim a Deus e sua obra. Basta que as pessoas se alegrem comigo e me declarem bem aventurada porque Deus me usou para fazer de mim essas suas obras”.

Com esta pequena amostra, não podemos negar que Lutero é, também para nós católicos, mestre e testemunha da fé.


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