Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 03/02/2016 às 17:57:53

“Profeta”

As leituras que serão proclamadas nas celebrações de missas e celebrações da palavra que acontecerão no próximo domingo nos convidam a refletir sobre a figura do profeta.

O dicionário “Aurélio” define profeta como “aquele que prediz o futuro, vidente, adivinho. Esta é a imagem que se fixou no consciente e inconsciente popular. No entanto, para nós cristãos católicos, a palavra profeta tem um significado bem diferente. Trata-se de uma pessoa chamada por Deus para realizar uma missão. A origem da palavra profeta encontra-se na língua grega e significa “aquele que fala em nome de outra pessoa”. Ou seja, para os textos bíblicos e para nós cristãos profeta é “aquele que fala em nome de Deus”. A Bíblia é muito clara neste sentido. Jeremias, descrevendo sua vocação profética assim se expressa: “Então o Senhor estendeu sua mão e tocou-me a boca. E o Senhor me disse: Eis que ponho as minhas palavras em tua boca. Vê! Eu te constituo, neste dia, sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e destruir, para exterminar e demolir, para construir e para plantar. Foi-me dirigida a palavra do Senhor nos seguintes termos:”O que estás vendo, Jeremias?” Eu respondi: “Vejo um ramo de amendoeira”. Então o Senhor me disse: “Viste bem, porque eu estou vigiando sobre a minha palavra para realizá-la. E a palavra do Senhor foi-me dirigida, uma segunda vez, nestes termos: “O que está vendo?” Respondi: “Vejo uma panela fervendo, cuja boca está voltada a partir do Norte”. E o Senhor disse: Do Norte derramar-se-á a desgraça sobre todos os habitantes da terra”.

O profeta, com freqüência, precisa enfrentar a oposição, a solidão, o conflito e o risco. Por isso, quando chamados por Deus, em geral, os profetas relutam em aceitar a missão. Assim foi com Jeremias, conforme ele mesmo descreve: “Nos dias de Josias, rei de Judá, a palavra do Senhor me foi dirigida nos seguintes termos: Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei. Eu te constitui profeta para as nações. Mas eu disse: Ah! Senhor, nosso Deus, eis que eu não sei falar, porque sou ainda uma criança! Deus, no entanto, depois que escolheu alguém, não volta atrás. A pessoa fica como que presa nas mãos de Deus. Resistir é quase que inútil. À objeção de Jeremias Deus respondeu: “Não digas: “Eu sou ainda uma criança!” Porque a quem eu te enviar, irás, e o que eu te ordenar, falarás”.

Se é verdade que o profeta não consegue dizer não a Deus, é certo também que Deus não vai abandoná-lo. Por isso, Deus, não se cansa de repetir: “Não tenhas medo, porque eu estou contigo. Eu te transformarei hoje numa cidadela fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra; eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão porque estou contigo para te defender”.

Com freqüência se pensa que os profetas existiram apenas nos tempos em que a Bíblia foi escrita. No entanto, os profetas continuam existindo e Deus conta com eles, na Igreja católica, nas outras Igrejas cristãs e até mesmo nas religiões não cristãs, para intervir na história de nosso mundo. Entre os mais importantes de nossos tempos podemos citar vários nomes: Dom Oscar Romero, o grande arcebispo de El Salvador, defensor dos pobres de seu país, morto enquanto celebrava a santa missa; recentemente declarado beato pelo Papa Francisco; Gandhi que nem batizado não era, mas que morreu declarando perdão para quem o assassinou; Luther King que foi um pastor da Igreja Batista e lutou contra o racismo, e pelos direitos civis e a dignidade do povo negro nos Estados Unidos e foi assassinado, um dia depois de ter feito um sermão em que se dizia estar tranqüilo diante das ameaças de morte; Dom Helder Câmara, cuja voz, em favor dos menos favorecidos, ressoou por todo o mundo, embora aqui no Brasil, no tempo da ditadura militar, estivesse proibido de falar, bem como notícias a seu respeito não pudessem circular; Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal, arcebispo emérito de São Paulo, o profeta que enfrentou e denunciou a tortura sofrida por tantos irmãos e irmãs que lutavam por liberdade, justiça e dignidade; Dom Pedro Casaldáliga, bispo prelado emérito de São Felix do Araguaia, que por diversas vezes milagrosamente escapou da morte em atentados perpetrados pelos inimigos da fé; Dom Erwin Kräutler, bispo prelado emérito do Xingu- PA, que até hoje vive protegido por guarda-costas, devido às várias ameaças de morte de que tem sido alvo.

No Batismo, fomos ungidos como profetas. Estamos conscientes desta vocação a que Deus nos convocou? Temos consciência de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus se dirige a nossos irmãos?


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