Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 03/02/2016 às 17:56:06

Padre Cícero “O Santo do Sertão Nordestino”

No último 13 de dezembro, dia em que foi aberta a Porta Santa do Ano da Misericórdia, o Bispo de Crato, Ceará, dom Fernando Panico, leu para os fiéis reunidos na catedral uma carta assinada pelo Secretário do Estado do Vaticano, reabilitando Pe. Cícero Romão Batista das sanções que lhe tinham sido impostas pela Igreja católica. Após a leitura, seis padres entraram pelo corredor central com o retrato do Pe. Cícero em uma moldura dourada e o colocaram próximo do altar. O Bispo dom Fernando, aludindo à possibilidade de futura beatificação e canonização, observou: “Ele entrará como romeiro; seu lugar não será ainda o altar, mas ficará no meio do povo, invocando e cantando conosco a misericórdia do Pai”. O povo presente esticava o braço para tocar o quadro ou ajoelhado fazia o sinal da cruz, enquanto lá fora estouravam fogos de artifício. Sem dúvida, este fato representa a reparação de uma injustiça histórica. Até então, a imagem do Pe. Cícero não podia ser exposta dentro de uma igreja.

Na carta de reabilitação, o Cardeal Pietro Parolin afirma que “com a distância do tempo e o evoluir das diversas circunstâncias, é sempre possível reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como sacerdote e, deixando à margem os pontos mais controversos, por em evidência aspectos positivos de sua vida e figura, tal como é atualmente percebida pelos fiéis”.

Vários jornais e telejornais noticiaram o fato. Mesmo assim, fiquei com a impressão de que nós católicos aqui do sul do Brasil não percebemos a importância deste “gesto concreto de misericórdia, de atenção e de afeto do Papa Francisco” para com os dois milhões e meio de romeiros que, de todo o Brasil, vão anualmente a Juazeiro do Norte, no estado do Ceará, agradecer e invocar graças pela intercessão do Padim Ciço, como carinhosamente é chamado pelo povo.

Mas, quem foi mesmo o Padre Cícero Romão Batista?

Nascido na cidade do Crato, hoje sede de Diocese, aos doze anos, conforme escreveu em seu testamento, fez voto de castidade. Aos vinte e um anos entrou no seminário e aos vinte seis anos foi ordenado padre. Em vinte e quatro de dezembro de 1871 celebrou missa pela primeira vez em Juazeiro do Norte que era então um distrito do município do Crato. Alguns autores afirmam que Pe. Cícero decidiu morar em Juazeiro depois de um sonho em que Jesus lhe apareceu e, mostrando uma multidão faminta, lhe ordenou: “Tome conta deles”. Chegado a Juazeiro, além da construção da igreja de Nossa Senhora das Dores, padroeira do lugar, Pe. Cícero iniciou seu trabalho de evangelização, com atenção especial para os pobres. Muito rápido conquistou a simpatia, o respeito e a admiração do povo do lugar e de suas redondezas, que atraídos pela caridade do padre vinham morar em Juazeiro. Costumavam dizer: “Padre como o daqui a gente nunca tinha visto. É só por isso que a gente deixa a terra e vem pro Juazeiro”. Para ajudá-lo em seu trabalho em favor dos pobres, Pe. Cícero agregou um grupo de jovens, rapazes e moças, e fundou uma espécie de Congregação Religiosa. Estes jovens eram pessoas simples, mas muito religiosas e comprometidas com a vivência do Evangelho. Ficaram conhecidos com o nome de Beatos e Beatas do Juazeiro.

Certo dia, em 1889, ao receber a comunhão, a hóstia se transforma em sangue na boca da beata Maria Araujo. O fato repetiu-se dezena de vezes.

O Bispo de Fortaleza, sabendo do acontecido, nomeou uma comissão para estudar o fenômeno. A comissão depois de um mês de trabalho, num longo relatório, confirmou a autenticidade do milagre. Insatisfeito com o resultado, o Bispo destituiu a comissão e nomeou outra que em dois dias concluiu que não houve milagre. Este resultado foi do agrado do Bispo. Pe. Cícero foi instado a negar o milagre. Ele respondeu que em consciência não podia negar o que tinha presenciado mais de uma vez. Por isso foi condenado e proibido de celebrar a Santa e demais sacramentos. Ele obedeceu, mas, da janela de sua casa, através de sermões e catequese, continuou orientando os romeiros que o procuravam.

A proposta de reabilitação do Pe. Cícero foi feita, já faz um bom tempo. A CNBB e os Bispos do Brasil têm dado todo o seu apoio como atestam estas palavras de dom Décio Zandonade, Bispo emérito de Colatina, ES: “Desde o ano passado, quando estive em Juazeiro, algo novo vai se fortalecendo no meu coração, no desejo de conhecer melhor e difundir mais a figura do Pe. Cícero que certamente será reconhecido pela história como um dos grandes e corajosos evangelizadores que Deus suscitou no mundo. O contato pessoal mantido com inumeráveis romeiros me deu a certeza de que o povo sabe onde está a autenticidade cristã e que o Pe. Cícero soube, como ninguém, traduzir a essência do Evangelho de Jesus para esse povo e embebê-lo desta nova mística de simplicidade e de fé”.


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