Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 03/02/2016 às 17:54:21

Dia Mundial da Paz

Todos os anos, por ocasião do Dia Mundial da Paz, o Papa envia para os católicos e também para todas as pessoas de boa vontade uma mensagem. Neste ano, o título e o tema da mensagem é: Vence a indiferença e conquista a paz. Embora a data da comemoração já tenha passado, penso ser útil, aproveitar esta oportunidade para resumir o pensamento do Papa, pois ele não falou apenas para um dia. Sua intenção, todos nós sabemos, é dar orientações para o nosso agir durante todo o ano que ainda estamos iniciando. 

O Papa começa sua mensagem fazendo uma avaliação de 2015. Constata que, apesar de ter sido um ano, do começo ao fim, marcado por guerras e atos terroristas, a ponto de se poder dizer que estamos vivendo por etapas a “terceira guerra mundial”, 2015 foi também um ano em que houve muitos acontecimentos onde as pessoas demonstraram sua capacidade de “agir solidariamente, perante situações críticas, superando os interesses individualistas, a apatia e a indiferença”. Cita em seguida três grandes acontecimentos: o encontro dos líderes mundiais, no âmbito da 21ª Conferência do Clima em Paris, a Conferência de Adis-Abeba para a arrecadação de fundos destinados ao desenvolvimento sustentável do mundo, e a adoção por parte das Nações Unidas, da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável que visa assegurar, até 2030, uma existência mais digna para todos, sobretudo para as populações mais pobres da terra. No âmbito da Igreja, o Papa registra “o cinqüentenário de dois documentos do Concílio Vaticano II que exprimem, de forma muito eloqüente, o sentido de solidariedade da Igreja com o mundo”. Trata-se do Decreto Nostra Aetate e da Constituição PastoralGaudium et Spes. No Decreto Nostra Aetate a Igreja foi convidada a abrir-se ao diálogo com as religiões não-cristãs. Na Constituição Pastoral Gaudium et Spes a proposta foi para estabelecer um diálogo com a família humana sobre os problemas do mundo. As duas propostas mantém sua urgência na Igreja. Para alcançá-las, o Papa indica o caminho da misericórdia e da superação da indiferença.

A primeira indiferença a superar é “a indiferença para com Deus, da qual deriva também a indiferença para com o próximo e a criação”. Em nossos dias, as pessoas se sentem auto-suficientes. “Visam não só ocupar o lugar de Deus, mas até prescindir completamente dele”. A indiferença para com Deus tem como conseqüência o relativismo e o descompromisso com a paz. Já dizia o Papa emérito, Bento XVI, “o esquecimento e a negação de Deus produzem crueldade e violência sem medida”.

A segunda indiferença a ser vencida é a indiferença para com o próximo em suas diferentes fisionomias. Muitas pessoas estão informadas de tudo o que acontece, mas não se deixam tocar pela dor dos seus semelhantes. Estão como que anestesiadas. Chegam até achar que as vítimas são culpadas dos males que lhes são impostos. Noutras pessoas a indiferença caracteriza-se pela alienação. Estão alheias a tudo o que acontece. São surdas ao grito de angústia dos que sofrem. “A indiferença para com o próximo, filha da indiferença para com Deus, assume as feições da inércia e da apatia, que alimentam a persistência de situações de injustiça e grave desequilíbrio social, as quais podem, por sua vez, levar a conflitos ou de qualquer modo gerar um clima de descontentamento que ameaça desembocar, mais cedo ou mais tarde, em violências e insegurança”.

A terceira indiferença que precisamos combater é a indiferença em relação à terra, nossa casa comum. Se a indiferença para com o próximo é conseqüência da indiferença para com Deus, a indiferença para com a natureza é conseqüência da indiferença para com Deus e para com o próximo. “A indiferença pelo meio ambiente natural, favorecendo o desmatamento, a poluição e as catástrofes naturais que desenraizam comunidades inteiras do seu ambiente de vida, constrangendo-as à precariedade e à insegurança, cria novas pobrezas, novas situações de injustiça com conseqüências muitas vezes desastrosas em termos de segurança e paz social”.

O remédio para a indiferença é a misericórdia. Ela é o coração de Deus, deve ser também o nosso coração, “o coração de todos aqueles que se reconhecem membros da única família dos filhos de Deus; um coração que bate forte onde quer que esteja em jogo a dignidade humana, reflexo de Deus nas suas criaturas”. “É determinante para a Igreja e para a credibilidade de seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. (...). Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos, em suma, onde houver cristãos, qualquer pessoa deve encontrar um oásis de misericórdia. Agindo desta forma, podemos dizer que somos pessoas comprometidas com a construção da paz.


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