Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 02/03/2017 às 16:26:00

Quaresma

No início da Igreja, os cristãos, com seu estilo de vida, apareciam como sendo diferentes e até estranhos às demais pessoas da sociedade. Uma carta anônima, daquela época, dirigida Diogneto, faz a seguinte descrição: “Não se distinguem os cristãos dos demais, nem pela região, nem pela língua, nem pelos costumes. Não habitam cidades à parte, não empregam idioma diverso dos outros, não levam gênero de vida extraordinário. A doutrina que se propõem não foi excogitada solicitamente por homens curiosos. Não seguem opinião humana alguma, como vários fazem. Moram alguns em cidades gregas, outros em bárbaras, conforme a sorte de cada um; seguem os costumes locais relativamente ao vestuário, à alimentação e ao restante estilo de viver, apresentando um estado de vida (político) admirável e sem dúvida paradoxal. Moram na própria pátria, mas como peregrinos. Enquanto cidadãos, de tudo participam, porém tudo suportam como estrangeiros. Toda terra estranha é pátria para eles e toda pátria, terra estranha. Casam-se como todos os homens e como todos procriam, mas não rejeitam os filhos. A mesa é comum; não o leito. Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Se a vida deles decorre na terra, a cidadania, contudo, está nos céus. Obedecem as leis estabelecidas, todavia superam-nas pela vida. Amam a todos e por todos são perseguidos. Desconhecidos, são condenados. São mortos e com isso se vivificam. Pobres, enriquecem a muitos. Tudo lhes falta, e têm abundância de tudo. Tratados sem honras, e nestas desonras são glorificados. São amaldiçoados, mas justificados. Amaldiçoados, e bendizem. Injuriados, tributam honras. Fazem o bem e são castigados quais malfeitores. Supliciados, alegram-se como se obtivessem vida. Hostilizam-nos os judeus quais estrangeiros; perseguem-nos os gregos, e, contudo, os que os odeiam não sabem dizer a causa desta inimizade”.

         Esta singularidade de estilo de vida não nascia do nada. Era fruto de um longo e duro tirocínio, com provas muito severas, chamado catecumenato. Na proximidade da Páscoa as provas e os exercícios se tornavam ainda mais severos.

         Muitos, no entanto, depois de batizados e de ter fugido das imundícies do mundo pelo conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, de novo eram seduzidos e se deixavam vencer por elas. Como o cão voltavam a comer do próprio vômito e como a porca lavada tornavam a revolver-se na lama (2Pd 2,20-22).

         Se por acaso quisessem voltar à singular vida dos cristãos, deviam fazer parte de um grupo específico, chamado Ordem dos Penitentes, onde os exercícios e provas eram mais exigentes e mais severas do que no processo do catecumenato.

A partir do século II, por solidariedade aos penitentes e aos catecúmenos, os demais cristãos, na proximidade da Páscoa, começaram, também eles, a fazer os mesmos exercícios e as mesmas provas. Estão aí os primeiros esboços da Quaresma. No início do século IV, no Oriente e, no final do mesmo século, no Ocidente, já encontramos a Quaresma estruturada em 40 dias como hoje.

O Concílio Vaticano II desejando “fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis” (SC 1) recomenda o seguinte: “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica esclareça-se melhor a dupla índole do tempo quaresmal, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais freqüência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração,  (...). Por isso, utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprio da liturgia quaresmal; (...). Diga-se o mesmo dos elementos penitenciais. Quanto à catequese, seja inculcada na alma dos fiéis, juntamente com as conseqüências sociais do pecado, a natureza própria da penitência que detesta o pecado como ofensa feita a Deus” (SC 109).

Atenta a esta orientação do Concílio Vaticano II, a Igreja no Brasil há 53 anos celebra na Quaresma a Campanha da Fraternidade, onde cada ano reflete e propõe a conversão de um pecado social.

Neste ano, teremos diante dos olhos, a proposta da defesa da vida, a partir de um melhor conhecimento sobre os biomas brasileiros. Na nossa reflexão seremos iluminados pelo lema: “cultivar e guardar a criação”.

Alguém poderá objetar dizendo que este tema não tem nada a ver com a moral, muito menos com nossa fé cristã. Neste sentido é bom lembrar o Papa Bento XVI que em sua carta encíclica Caritas in Veritate enfatiza que “a Igreja tem uma responsabilidade pela criação e deve fazer valer essa responsabilidade também em público. E, ao fazer isso, deve defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos (CV 61). E o Papa Francisco em sua carta encíclica Laudato Sì, afirma: “A interdependência das criaturas é querida por Deus. (...). Nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras” (LS 69).


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