Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 06/01/2017 às 12:47:16

Culto à Palavra de Deus

CULTO À PALAVRA DE DEUS

 

         Conforme a carta de São Paulo aos Romanos, a fé nasce e se alimenta da Palavra de Deus (Rm 10,17). Por isso, os Apóstolos sentiram como sua primeira responsabilidade, a pregação da Palavra. Diante da falta de atenção às viúvas e órfãos de língua grega, na distribuição das ofertas, os Doze, tendo reunido a comunidade de Jerusalém, disseram: “Não está certo que nós abandonemos a pregação da Palavra de Deus para servirmos às mesas” (At 6,2). O mesmo cuidado tinha o Apóstolo Paulo. Ao seu amigo e discípulo Timóteo dá este conselho: “Empenha-te em te apresentares diante de Deus como um homem provado, como um operário que não tem de que se envergonhar e que comunica a palavra da verdade com exatidão” (2Tm 2,15). Tão evidente era, para a Igreja apostólica, a importância da Palavra que dispensava a ela a mesma veneração dada a Eucaristia.

São Jerônimo, por exemplo, no seu comentário sobre o livro do Eclesiastes assim se expressou: “Eu penso que o Corpo de Cristo é o Evangelho e que seu ensinamento são as Sagradas Escrituras. Quando pois, Jesus diz: Quem não come minha carne e não bebe o meu sangue não tem a vida, podemos certamente entender que ele está falando da Eucaristia. Mas é certo igualmente que o Corpo de Cristo e seu Sangue são a Palavra das Escrituras, seu divino ensinamento. Quando participamos da celebração da Eucaristia, tomamos cuidado para que nenhuma migalha se perca. Quando ouvimos a Palavra de Deus, quando a Palavra de Deus é dada aos nossos ouvidos e nós, então ficamos pensando em outras coisas, que cuidado tomamos? Alimentemo-nos da carne de Cristo, não somente na Eucaristia, mas também na leitura das Escrituras”.

Esta prática foi muito bem lembrada pelo Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Dei Verbum quando afirma: “A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor, já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar, toma da mesa, tanto da Palavra de Deus, quanto do Corpo do Cristo, o pão da vida, e o distribui aos fiéis” (DV 21).

         É significativo que o Concílio tenha usado o verbo no passado. “Sempre venerou”. Esta forma de se expressar certamente quer chamar nossa atenção para o fato de no presente estarmos um tanto descuidados desta veneração. Graças a Deus, nosso povo tem um grande respeito para com a sagrada Eucaristia. Alguns, até de forma exagerada, não aceitam receber a hóstia na mão, achando-se indignos de tal proximidade. A sagrada Escritura, no entanto, fica jogada de qualquer jeito e em qualquer lugar. Em nossas celebrações damos um destaque especial para o altar porque é a mesa da Eucaristia, enquanto que o ambão, a mesa da Palavra, em muitas igrejas nem sequer existe, e em outras, não passa de uma reles estante. Os vasos sagrados, destinados a conservar as hóstias consagradas, geralmente são de material nobre e bem cuidado. A Palavra de Deus, no entanto, não às vezes, mas quase sempre, é apresentada em folhetos sem nenhuma dignidade e, que depois, ficam por aí, rolando, sem o menor respeito.

         Esta mentalidade e esta prática não surgiram do nada. Infelizmente é preciso dizer que, por circunstâncias históricas, o Concílio de Trento proibiu as edições e a divulgação da Bíblia em língua vernácula. O Concílio de Trento decretou também que a Vulgata, texto latino, traduzido por São Jerônimo, era a única autêntica entre as versões latinas. Posteriormente, precisando melhor as orientações do Concílio, foram emanadas, pela Santa Sé, algumas normas sobre a leitura da Bíblia. A quarta norma dizia textualmente: “Já que a experiência mostra que, se se permite a sagrada Bíblia em língua vulgar em todo lugar indiscriminadamente, daí surge mais dano que utilidade, por causa da temeridade dos homens, compete neste ponto, ao juízo do bispo ou do inquisidor, com o conselho do pároco ou do confessor, conceder a leitura dos livros bíblicos traduzidos em língua vernácula por autores católicos àqueles que, segundo sua percepção, possam de tal leitura receber não dano, mas aumento da fé e da piedade” (DH 1854). Estas orientações são as responsáveis pela pouca afeição dos católicos às sagradas Escrituras, mas que, graças a Deus e as celebrações litúrgicas, está sendo superada. De fato, na intenção do Papa Paulo VI, a reforma litúrgica foi feita “para aumentar cada vez mais nos fiéis a fome da Palavra de Deus”. Tudo faz crer que este objetivo está sendo alcançado.

        


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