Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 07/12/2016 às 15:44:29

Misericórdia - A chave de leitura de Amoris Laetitia

Por ocasião do encerramento do Ano Santo de Misericórdia fui interrogado se o tema da misericórdia também aparece na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, e se aparece, quais as indicações do Papa para que as famílias sejam acompanhadas com misericórdia. Partilho com vocês a minha resposta.

O tema da misericórdia é a chave de leitura da Amoris Laetitia.  Sem este pressuposto a compreensão do documento fica prejudicada. O texto inteiro insiste em assumir um perfil “materno” da doutrina e, mesmo sem explicitar, o anúncio da misericórdia paira como uma cortina musical. O papa insiste que a família é um lugar de realização e de amor, mesmo tendo limitações e falhas. As famílias são oportunidades, não problemas (AL 7), e que falar da família é falar de uma boa notícia (AL 1).

Com a Amoris Laetitia o Papa encerra o período dos documentos normativos embasados em leis canônicas, que pretendem resolver tudo através de normas gerais, para iniciar uma nova fase em que irrompe o “plus da misericórdia” exigindo que as circunstâncias e as situações particulares sejam levadas em conta. No dizer de Andrea Grillo, teólogo leigo italiano, “o ministério magisterial restitui à dinâmica eclesial a ‘mediação da contingência’ sem pretender enquadrá-la de uma vez por todas em uma ‘lei geral’.(...). Deus não está apenas na máxima exterioridade da lei, mas também na intimidade da consciência”. Segundo o Papa, na orientação pastoral, o cuidado deve ser o da formação das consciências, jamais o de substituí-las, pois o ensinamento sobre o matrimônio e a família precisa ter como base a misericórdia e a ternura, do contrário vai se tornar mera defesa de uma doutrina sem vida. Sem dúvida é o “princípio-misericórdia” que propõe a chamada “lei da gradualidade”. À luz desta lei, somos orientados a “evitar juízos que não levam em consideração a complexidade das diversas situações e não prestam atenção ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (AL 296). “Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas conseqüências que decorrem dela” (AL 3).

Como é próprio do Papa Francisco, o estilo da Amoris Laetitia é pessoal, pastoral, acessível à maioria dos leitores. Um pensamento muito forte é o da integração. É desejo do Papa que os pastores não poupem esforços para estar perto das pessoas, sem pré-julgamento. “O caminho da Igreja é o de não condenar ninguém; derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com o coração sincero” (AL 296). Esta atitude empolga os agentes de pastoral familiar e conforta os fiéis, particularmente, os que estão passando por alguma dificuldade familiar. Amoris Laetitia insiste também na necessidade do discernimento de cada situação concreta, pois a realidade familiar é muito complexa. As respostas para as questões, com freqüência, não são fáceis, nem simples. Isto é muito bom. Evita açodamento e pede espírito de oração e humildade diante dos problemas que aparecem no dia a dia da ação pastoral. 

Sobre os impactos que Amoris Laetitia pode causar fica difícil avaliar. Talvez se possa dizer que a relação entre hierarquia, magistério e sensus fidei ficou mais próxima. Até o momento, nesta área da vida familiar, havia um divórcio entre o ensinamento oficial e a prática real dos fiéis. Mas é preciso dizer que proposta não é ainda realidade. A este respeito, Andrea Grillo observa que a Igreja, agora investida da autoridade do Espírito Santo, como dom de misericórdia que não exclui ninguém, vai precisar assumir “a responsabilidade de não se deixar substituir pelo superior de plantão”.

Outro possível impacto é o acompanhamento das famílias e das pessoas. Os bispos e os padres são vivamente motivados a se guiar, em suas orientações, a partir das circunstâncias em que vivem os fiéis, sem a pretensão da resposta feita a partir de princípios dogmáticos. Isto significa uma verdadeira novidade e poderá causar significativo impacto.

O texto inteiro faz indicações para que as famílias sejam orientadas com misericórdia. O capítulo VI, que trata das perspectivas pastorais e o capítulo VIII que tem como título: acompanhar, discernir e integrar a fragilidade são os que mais indicações oferecem. Não é o caso, fazer aqui uma síntese destes dois capítulos. Cito apenas um pensamento para motivar a sua leitura: “A Igreja deve acompanhar, com atenção e solicitude, os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e extraviado, dando-lhes de novo confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou de uma tocha acesa no meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota ou estão no meio da tempestade. Não esqueçamos que, muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha” (AL 291).


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